Skip to content

Matahouroua parte 1

June 5, 2013

General Kōurahou,

A luz arrogante da Lua é, ironicamente, o presságio do nosso sucesso. Apercebo-me de que as sombras não vão mais obscurecer a face branca. O balanço é absoluto, pois tanto Hiruhāramānia como a nossa companhia terão sustento divino. Sei, também, que as pestes não estão cientes da minha chegada. É altura de exercer o meu dever para as planícies.

Quero que concentres as tuas forças na ponta nordeste do planalto, aonde os rios começam a fundir-se. Hiriwapā, e o resto da linha de povoamentos ao longo da borda ao norte, irá cair. Mandei reforços a seguirem o Ingikiwai, que devem chegar numa questão de horas; mais duas vagas vão chegar amanhã, seguidas por uma terceira e quarta no dia a seguir.

Preciso que ataques por cerca de cinco dias, e tenta ao máximo dar a impressão que as nossas forças estão focadas no norte. Eu estou em Kōmarumaunga, preparado para destruir a minha vergonha.

Espero que esta guerra seja como um relâmpago, que irá acabar tão depressa como começou. Faz como eu digo, e mais serão as testemunhas da aurora.

Tem fé em ti,

Te Hokioi

***

Cara Raiti,

Apesar dos nossos esforços anteriores para manter uma posição neutral, decidimos aceitar a sua proposta. Julgamos que a senhora demonstra imensa circunspecção, e é do nosso mútuo melhor interesse que colaboremos.

Cinco representantes (eu próprio entre eles) chegarão em breve, subindo o rio. Como quão claramente adivinha, pedimos que Kiwitea baixe a guarda, pois embora tenhamos paciência e aceitemos alguns erros, ter a nossa companhia brutalmente morta não é algo que nos agrade muito.

Enviando os nossos melhores cumprimentos,

Purūpī dos Parekareka

***

Suprema Elegância,

Nunca duvidei da sua magnífica prudência, e eu próprio vejo o radiante produto da sua divina estratégia. A destruição de Hiriwapā foi rápida e demonstrou resultados positivos quase instantaneamente. Caiu em menos que uma hora; os Kahuna e e Ali’i locais demonstraram tamanha patética inferioridade aos nossos guerreiros, tornando-se com desgosto no símbolo da decadência do sistema de castas. As nossas nobres tropas têm sustento em água e carne, e vamos atacar Mangokāinga daqui a meia hora.

Interceptamos os Kererū enviando as mensagens de socorro, por isso estamos confiantes que as planícies estão ignorantes à queda de Hiriwapā. Sei que o sucesso da sua estratégia depende que Hiruhāramānia tenha conhecimento da queda destes povoamentos, por isso só atrasamos o processo para dar descanso às tropas. Após a queda de Mangokāinga, irei para o extremo oeste desta linha de povoamentos, e subsequentemente vou dividir as tropas.

Não sei se preciso de mais reforços para esta estratégia; tendo em conta a função destes ataques, será a vitória de batalhas individuais necessária? Para dar a impressão que bombardear a área com tropas é vital, é de maior importância criar desespero.

Com admiração superlativa,

General Kōurahou

***

Caro Aata,

Os Parekareka finalmente obedeceram à razão, e vêm a subir o rio. Kiwitea não os vai atacar, mas não foi por minha causa.

O Taniwha disse-me que sente presenças nas montanhas, Aata. Alguém vem atacar-nos, e Kiwitea não nos vai defender.

Digo-te, o Aomārama está a chegar. Hiruhāramānia será aonde Ao irá começar a banhar a existência com luz, e é vital que esta cidade seja pura. Defende os devotos e espalha a palavra, pois é com o fogo sagrado iremos renascer das cinzas.

Glória a Ao,

Raiti

***

Pouakai! Pouakai!

***

Whēuriuri,

Hiruhāramānia corre perigo de um grave predicamento. Te Hokioi regressou. Para eliminar esta ameaça, tens de invocar Pō. Só ela pode impedir a queda de Hiruhāramānia, ou mesmo de Hinawahine.

Ouve o meu aviso,

Korare dos Pihita Kahuna.

***

General Aata,

Vimos com os nossos próprios olhos a desgraça em que Hiriwapā caiu. As casas estão queimadas e partidas, e cadáveres adornam os terrenos. Quase todos têm marcas de garras no crânio ou nas costelas, como se mãos tivessem apertado e esmagado esses ossos, e em todos há evidência que algo os comeu, deixando apenas a carne das mãos e pés, e tenho quase toda a certeza que não foram Kea ou ʻAlalā ou outros carniceiros.

Julgo que foram mesmo Pouakai. Julgo que já não são apenas águias solitárias, mas monstros a destruir as nossas aldeias.

Como é que havemos de destruir estas ameaças? Os Kawau já são problemas que cheguem nos pântanos, quanto mais os Pouakai.

Haki

***

General Aata,

Como sempre, a minha fé confirma a chegada do fim do mundo. Devemos proteger Hiruhāramānia custe o que custar!

A aliança com os Parekareka ocorreu no momento mais oportuno. Tenho fé que havemos de vencer aos Pouakai, e que os céus irão abrir com luz divina e revelar a derradeira luz!

Sua Majestade irá arrepender-se da sua amoralidade, mas será demasiado tarde quando a verdade atingir o mundo!

Apenas Ao triunfará,

Raiti

***

Suprema Elegância,

Agimos de acordo com a sua gloriosa estratégia, mas parece que não há frutos para colher.

As nossas tropas destruíram todos os povoamentos ao norte, mas não há sinal de tropas humanas a virem nesta direcção. Os nossos guerreiros chacinaram a população com resistência mínima, ao ponto que muitos entre nós ficaram revoltados com a falta de auxílio na parte do inimigo.

Julgo que se aperceberam do plano, e focaram o seu exército em Hiruhāramānia. Os cobardes sem honra muito obviamente não têm consideração pelos seus súbditos. Se alguma fez duvidei da moralidade da nossa cruzada, agora de certeza não duvido, pois estes imorais sacos de carne podre têm pagar pelo seu egoísmo.

Com a sua permissão, eu e as minhas tropas vamos ter consigo em Kōmarumaunga; a sua nobre conquista de Hiruhāramānia terá o nosso auxílio para lá da morte. Antes morrer por uma causa gloriosa do que viver sabendo que tal imoralidade como a dos governantes de Hiruhāramānia existe.

A minha vida pertence-lhe,

General Kōurahou

***

Whēuriuri,

Raiti fica cada vez mais doida varrida a cada dia que passa. Ela teve a audácia de forçar a falta de reforços, e aterroriza-me a ideia que ela crie uma revolta contra ti.

Deixa-me estar a teu lado. Deixa-me proteger-te. Eu tento seguir a mim honra ao máximo, mas não consigo focar-me quando sinto que estás em perigo. Ainda pior agora que os Parekareka estão quase a chegar, e adivinha quem os enviou.

Amanhã foi ter contigo. Não ouvirei a palavra “não” nas cartas ou nas minhas orelhas. Se o inimigo for de facto Pouakai como a cara-de-lanterna diz, o ataque será aéreo, e será o palácio que estará em maior perigo.

Amo-te,

Aata.

***

Caro Hinuhou,

Custa-me imenso a admitir – sinto-me a morrer por dentro -, mas preciso da tua ajuda. Os bárbaros Pouakai decidiram armar-se em vigilantes e matar os humanos “imorais”, ainda por cima agora que a sacerdotisa doida está a pensar em causar o Aomārama. Por mais que a tua espécie nojenta não seja mais que uma paródia da magnificência poética dos Parekareka, prefiro mil vezes ter de viver no mesmo mundo que tu do que viver num mundo em que os Pouakai tenham o poder para exercer as morais patéticas deles e parar as minhas experiências.

Espero que tenhas bom senso e me envies reforços dos pântanos, vivos ou mortos-vivos. É do teu melhor interesse ajudar os humanos, e é do teu melhor interesse garantir que eu viva.

Espero que sejas um membro inteligente da tua espécie e vejas que tenho razão – não, eu sou sou a personificação da razão.

Impacientemente à espera,

Purūpī dos Parekareka

***

Purūpī,

Dá-me imenso prazer que estejas a sofrer. Não imaginas o quão invejo os Pouakai!

Todavia, infelizmente tens razão. Estou dependente de Hiruhāramānia e dos seus mercados, e os Pouakai são ainda mais insuportáveis que tu. Recentemente, um bando desses extremistas atacou a minha base de operações em Wairepomangu, e só consegui escapar graças a Pō. Tudo por causa de eu ter usado o cadáver de um dos generais deles como suporte para os meus chapéus. Se uma coisa tão mínima causa raiva neles…

Mandei o meu sobrinho ir ter contigo, juntamente com os meus mortos-vivos mais fortes. É do teu melhor interesse que não sejam destruídos (os mortos-vivos, não o sobrinho).

Hinuhou

***

Querido Mura,

Com grande orgulho mando-te, na tua primeira missão, a Wairepomangu, para que encontres a mulher conhecida como Pō, e a tragas a Hiruhāramānia, pois ela é vital na nossa vitória. Hatiti vai contigo; noutra ocasião eu mandaria Aata, mas o tolinho não me quer largar. Faz ele bem.

Podes pensar que isto é uma desculpa para te manter seguro, mas guaranto-te que não é, como vais em breve descobrir. Sei que tens andado preocupado, que tens medo que pessoas como Raiti destruam aquilo que a nossa família construiu, e que ela mude tudo para pior. Tens boas razões para te preocupar, mas não desesperes. Assim que Pō estiver aqui, prometo que tudo isto vai ser apenas uma memória.

Vais seguir o Ingikiwai a norte esta tarde; Hatiti vai ter contigo e dizer-te o que fazer. Tenho fé em ti, e eu gostava de poder despedir-me com um abraço e ternura, mas sabes que ser distante hoje é para o bem de todos.

Que Ka-moho-aliʻi te proteja,

Whēuriuri.

***

Caro Aata,

Na minha vida como sacerdotisa de Ao, já vi muitas coisas estranhas, mas um nojento Kawau e o ser exército de tartarugas mortas-vivas virem a Hiruhāramānia com a função de ajudar os Parekareka é sem sombra de dúvida a coisa mais bizarra que já me ocorreu.

Embora tenha a mesma opinião que os Parekareka acerca dos Kawau, decidi tolerar a ave imunda, pois temos poucas opções.

O teu amor pelo monarca em preto começa a enervar-me, mas isso é algo que cabe a Ao destruir. Pobre Mura vai à caça de feiticeiras negras em pântanos; não sei o que é pior, a sua cobardia ou a possibilidade de trazer ainda mais escuridão ao trono!

Os Pouakai virão amanhã de manhã; concentra os arqueiros à volta da tua flore maldita, enquanto a luz do meu bastão e dos Parekareka e a escuridão do Kawau resolvem os problemas aqui.

Sinceramente,

Raiti.

***

Caro tio,

Venho informá-lo que as suas Meiolania estão reducidas a cinzas. Francamente, estou muito satisfeito, pois eu odiava aquelas abominações. Não quero saber se são as suas preferidas ou não.

Há também outra notícia importante. Aparentemente, o herdeiro real está a caminho de Wairepomangu. Pelos vistos, parece que querem trazer Pō para Hiruhāramānia.

Já não tenho mais motivos para ficar aqui, pois vou regressar agora.

Pukehou

***

Purūpī,

És um completo idiota!

Arruinaste as minhas Meiolania! Sabes o quão difícil é arranjar carcaças de Meiolania!?

Como já te deves ter apercebido (ou não, visto que és praticamente cego), o meu sobrinho já partiu, e o herdeiro real segue o rio em direcção aos meus pântanos, aparentemente com a intenção de trazer a nossa Pō para o palácio em que te preguiças. Com alguma sorte, terei um cidade inteira de cadáveres para compensar a tua estupidez.

Espero que te cortem a garganta e fertilizem o teu esófago.

Hinuhou

***

Cara Raiti,

Mais uma fez agradeço-te pela a ajuda em combate, a cidade de Hiruhāramānia está mais uma fez em dívida.

Porém, estás a passar os limites que a tua posição oferece.

Os teus insultos a Whēuriuri não só estão a tornar-se menos subtis, como também começo a ouvir rumores de que já não são privados.

Como se isso não basta-se, agora insultas Mura, quando ele está a arriscar a própria vida para salvar a tua pele.

Basta. Não vais mais insultar as pessoas que eu amo.

De agora em diante, vais estar mais vigiada. Aviso-te, não penses sequer que te safas com o que quer que estejas a planear, pois garanto-te que te vais arrepender imenso se tentares algo nefasto.

Aata

***

Queridos Aata e Whēuriuri,

Já estamos em Ingikiwai. A descida do planalto foi relativamente calma; os Patupaiarehe não nos atacaram, aliás pareciam olhar-nos de forma encorajadora. Mas vá-se lá saber aquilo que pensam.

Chegamos às docas de Karatakara ao fim do dia. Deixamos as moas ao cuidado de Aherenika, que é uma amiga minha. É aquela rapariga com madeixas douradas que de vez em quando aparece quando trazem as tintas. Gostava que não houve-se tanta coisa a acontecer agora, pois deviam convidá-la.

Adiante, passamos a noite na casa dela, visto que ela é filha do capitão local. Ele é um tipo simpático, e tem bom humor. Comemos bem, embora Mura obviamente não tivesse gostado muito dos peixes. Ele já conhecia Aherenika desde há um ano ou dois, por isso não era um estranho, e deu-se bem com o capitão. Fomos deitar-nos cedo, eu e Aherenika no quarto dela e Mura com o capitão no quarto dele. Eu e Aherenika estivemos a discutir várias coisas, enquanto o quarto deles estava mais silencioso, por isso provavelmente foram dormir mais cedo.

Acordei pessimamente, graças ao maldito galo, mas partir mais cedo certamente não faz pior. O capitão não pôde vir connosco, mas pelo menos a tripulação é decente. Já tinha conhecido alguns deles antes, sei que são confiáveis.

Mura continua um bocado amuado. Pelo menos esteve a fazer amigos com a tripulação, que é bom. Devo confessar que não sei se é boa ideia confiar em Pō, mas tenho fé que pelo menos não será perigoso. Afinal, Mura sempre tem jeito no fogo.

Bom, eis o relatório do que aconteceu até agora. Espero a vossa carta.

Beijos,

Hatiti.

***

Caro Hinuhou,

Estou bem ciente da lista de atrocidades que cometeste. Não julgues que vais escapar sem pagar o preço que as tuas maldades exerceram sobre Hinawahine.

Todavia, posso tornar o teu castigo menos severo que colaborares comigo.

Mata Pō.

Sinceramente,

Te Hokioi.

______________________________________________________________________________________

Correndo a Este do, e em paralelo ao Planalto Central, Ingikiwai é considerado o seu oposto. Nascendo no extremo Sul dos terrenos elevados, move-se para Norte, alimentado pelos milhares de riachos descendo das montanhas ao longo do seu percurso, e pelas dádivas de chuva constante, trazidas pelo oceano e despejadas no rio, incapazes de ultrapassar as catedrais de pedra. Sempre junto à base do Planalto, vê-se rodeado de florestas densas; faias-austrais e podocarpos são as árvores dominantes, mas junto a Ingikiwai há bosques de gingkos e fetos arbóreos, ambos de um verde-claro, quase lima, em contraste o tom escuro das árvores mais comuns. Abaixo destes, fetos mais pequenos, juncos e cavalinhas cobrem as margens, ocultando a lama negra.

Ingikiwai, como a maioria dos rios, está cheio de sedimentos, tornando a água castanha. Porém, as suas águas possuem um estranho tom verde-escuro, mesmo filtradas da sua carga, e a combinação com os sedimentos resulta num tom negro, semelhante a óleo. O seu nome reflete esse estado: “água de tinta”. São estas águas escuras que abastecem os pântanos negros de Wairepomangu no Norte tropical, juntamente com o rio do Planalto, Kiwiteawai.

Nos dias anteriores ao ataque a Hiruhāramānia, números Pouakai sobrevoaram Ingikiwai, seguindo o rio no seu percurso. Agora, outra figura estava a voar sobre o rio.

Era um corvo-marinho, a sua envergadura chegando aos três metros, de um tipo invulgar, conhecido em Hinawahine como Kawau. As suas penas negras estavam em vários níveis de deterioração; quase todas as penas das asas tinham perdido bárbulas e barbas – e se não as tinham perdido, estavam desleixadas, separadas umas das outras -, ou tinham as raques partidas. Muitas das penas, tanto nas asas como no corpo, tinham sido arrancadas, ao ponto que a nuca estava completamente depenada, e a asa esquerda tinham um espaço significativo no seu meio. Para além dos danos às penas, tinha marcas de garras ao longo do torso, deixando feridas profundas ainda a sangrar.

Após ter estado no ar por várias horas, a fatiga começou a deixar a sua marca, e eventualmente desceu, entrando no rio com um estrondo. Flutuou à superfície, demasiado cansado para se mover. Arfando com dor, fechou os seus olhos cianos, virou a cabeça, e pousou o seu pescoço nas costas, o bico escondido pelas penas da asa direita.

Não soube por quanto tempo dormiu. Para as aves, o sono em si é rápido, por alguns segundos, mas isso não impede um descanso prolongado, passando por uma vasta série de sestas, sem abrir os olhos mesmo quando cada falta de consciência acaba. Por consequência, ao fim de vários minutos, a noção do tempo fica destruída.

No seu estado semi-acordado, detectou ondulações invulgares. Ingikiwai, calmo e sereno, não tem ondas, e, mesmo nos limites da consciência, perturbações na água são difíceis de ignorar.

O Kawau ergueu a sua cabeça num movimento brusco, porém estava num estado de alerta mínimo. A sua visão estava turva, voltando ao normal no período de um minuto exacto.

Uma Hōkūleʻa estava a atravessar as águas. As suas velas eram vermelhas, exibindo o símbolo heráldico de Ka-moho-aliʻi, o deus tubarão, uma série de linhas brancas formando o contorno do predador, suaves e alongadas de maneira a dar a sensação de que emergiu de águas sangrentas. Na embarcação estavam vários homens; usavam armaduras de prata ou de ouro, compostas por placas simples cobrindo o torso, conectadas por uma teia de cordas rijas. Vestiam saias curtas, de cor verde com padrões brancos, vermelhos e pretos, focados na base, à volta da cintura. As suas caras e braços estavam escurecidos por tatuagens, que de longe pareciam apenas manchas pretas. Alguns dos homens estavam a mover os remos, enquanto outros seguravam lanças e espadas serrilhadas como dentes de tubarão.

Os homens na Hōkūleʻa avistaram a ave, e um deles entrou na cabina. Pouco tempo depois, saiu com duas novas personagens. A primeira a sair era uma mulher nova, pouco depois dos vinte, vestindo um manto de penas negras a cobrir o torso e um pareo a cobrir o corpo do ventre até aos joelhos, branco com padrões vermelhos, verdes e azuis. Atrás da mulher veio um rapaz adolescente, usando apenas uma saia vermelha com padrões verdes; tinha uma cicatriz no lábio inferior, e possuía uma adaga serrilhada no cinto da saia. Os seus olhos eram de um tom invulgar, de um dourado metálico, entre o amarelo e o cinzento. Ao refletirem a luz do Sol, pareciam tem uma radiância única, algo que cativou a atenção do corvo-marinho.

Tanto a mulher como o rapaz olharam para a ave com espanto. Já o tinham visto antes, o estranho defensor Hiruhāramānia.

“Tragam-no a bordo” ordenou a mulher.

Com relutância, um dos homens mergulhou na água, e nadou na direcção da ave. Colocou o braço suavemente à volta do Kawau, que não ofereceu resistência. Assim que chegaram à Hōkūleʻa, os restantes homens levantaram o pássaro, pousando-o gentilmente na proa.

A mulher, à beira da ave, ajoelhou e tocou com as mãos nas feridas ainda abertas.

“Que estás a fazer?” disse o pássaro com uma exaustão dolorosa. A sua voz, produzida sem lábios, era rouca, com um distinto tom gutural.

“A curar-te.”

Antes que o Kawau tivesse a oportunidade de responder, as mãos começaram a brilhar com uma luz verde, e as feridas fecharam-se. Novas penas cresceram nas zonas depenadas, embora as penas estragadas tivessem continuado no mesmo estado. Sentindo-se rejuvenescido, o pássaro levantou-se e estendeu as asas.

“A que propósito?” perguntou a ave, “Julgava que os Kawau eram mais nada que pestes aos olhos do Planalto.”

“Salvaste Hiruhāramānia. É o mínimo que podia-mos fazer.”

“E também são só os idiotas de Ao pensam isso” disse o rapaz, visivelmente irritado, “Não que eles façam mais nada para além de odiar, ultimamente.”

Virando a cabeça, o Kawau conseguido ver árvores altas à distância, para lá dos limites da visão humana, crescendo no meio da água.

“Sempre vão buscar Pō, afinal.”

“Como é que sabes?” perguntou o rapaz.

A mulher, esfregando a testa, suspirou, sabendo já qual resposta lhe esperava, “Não é uma missão secreta, sabes?”

“Ótimo, simplesmente ótimo. Arranjam sempre novas maneiras de fazer de mim parvo. Ainda vai Raiti abrir o portão e eles hão de lhe dar adagas. Ao menos podiam ser honestos, que isto não passa de uma caça a gambozinos!”

“Olha, podes parar de embirrar por um momento? Quero fazer um contrato” disse a ave, de modo casual.

“Que tipo de contrato?” a mulher perguntou.

O Kawau bateu as asas, testando os membros já curados.

“Posso levar-vos diretamente a Pō. Sabem como Wairepomangu é vasto, e o quão elusiva ela é. Também posso garantir que ela irá fazer o que vocês querem, sem quaisquer consequências indesejadas. Obviamente, tudo isto tem um preço…”

“Eu curei-te! Não tens o mínimo sentido de gratidão?”

“Não, tu só fizeste-nos ficar iguais em dever. O favor de ter salvado Hiruhāramānia foi pago, o ciclo acaba! Não vamos andar ai às voltas com favores.”

“Continua a suar ingrato” resmungou o rapaz.

O Kawau fez um ruído estranho, com um tom de frustração. Lembrou-se por que é que não fazia negócios com as pessoas do Planalto: um grande sentido de honra não lhe era do seu agrado.

Subitamente, gritos penetrantes quase ensurdeceram a tripulação, e no céu, descendo das montanhas, um par de águias enormes planavam na direção da Hōkūleʻa. Eram duas vezes maiores que o Kawau, e tinham penas de um dourado intenso, refletindo com intensidade a luz do do meio-dia, como se fossem sóis pequenos. Planaram em círculos, descendo lentamente por vários minutos, antes de mergulharem a pique como estrelas cadentes.

“Mura, vai…”

Mas antes que a mulher tivesse acabado, o rapaz deu um murro na direção das aves, e uma torrente de chamas emergiu, um pilar de fogo que durou alguns segundos. Os Pouakai desviaram-se em direções opostas, e as chamas morreram no ar. Mura tentou mais uma vez, dando um pontapé no ar, e movendo a perna em círculos, criando uma espiral de fogo, mas só conseguiu criar um incêndio na margem oposta.

Uma das águias começou a voar em círculos à volta da Hōkūleʻa. Deu um grito, e um raio de luz prateada intensa surgiu da sua garganta, atingindo um dos homens nos remos, desintegrando-o em poeira. Porém, voar tão próximo deixou o Pouakai vulnerável, e foi atingido com o fogo de Mura. Levando com uma torrente de chamas, caiu na margem Este, aonde o incêndio do primeiro ataque do rapaz já estava a alastrar-se.

O outro Pouakai mergulhou em direção à mulher. O Kawau, no entanto, meteu-se entre ambos, e abriu o bico, libertando um nevoeiro escuro. O fumo preto atingiu o Pouakai, e este gritou de dor. Embora não houvesse fogo visível, as penas da águia ficaram queimadas, escurecendo e ficando reduzidas a cinzas. Voou em círculos, tentando apagar o fogo invisível, mas em vão. Alastrando-se, atingiu a pele, que começou a escurecer e a borbulhar, e o pássaro caiu na margem Oeste de Ingikiwai. Morreu, e a carne gradualmente ficou reduzida a vestígios negros, expondo os ossos, que também começaram a escurecer e a tornar-se am cinzas.

“Julgo que me devem um favor…”

A mulher, até então relativamente calma, resmungou, causando um riso na cara de Mura.

“Quanto é que é o preço?”

“Pensarei nisso na nossa viagem. Bem, já que estamos num contrato, é cortesia introduzir-me. Chamo-me Pukehou. Julgo que o rapaz se chama Mura?”

“Sim. Sou Hatiti, e geralmente eu diria que seria um prazer conhecer-te, mas não gosto de contratos forçados.”

“Só por curiosidade, por que é que nos ajudaste em Hiruhāramānia?” Perguntou Mura.

“O meu tio mandou-me. Disse que havia uma carga de corpos de grande valor, ou qualquer coisa do género. Vai matar-me por ter arruinado as tartarugas mortas-vivas. Claro que não me importo de dizer onde ele está que o quiserem entregar às autoridades.”

“Quem anda por ai a roubar pessoas mortas devia juntar-se à sua coleção de cadáveres…”

“Mura, não temos tempo para isso.”

“Temos sim! Se vamos a Wairepomangu, ao menos que façamos proveito.”

“Só podemos ficar lá três dias no máximo, Mura. E os Pouakai podem atacar novamente amanhã.”

“Pō vai resolver isso, de certeza. Basta apenas criar um isco.”

Mura, lembrando-se de algo, voltou-se ao Kawau.

“Olha, aquilo que fizeste aos Pouakai…ensinas-me?”

“Estás familiarizado com os tipos de mana?”

“Bem, um bocado. Sei que há diferenças entre o que se pode fazer dependendo da terra.”

“Precisamos de chegar a Wairepomangu. Aquilo que eu fiz é o miasma do pântano, o fogo sem luz da putrefação. Só consegues fazer uso dele se usares a essência de Wairepomangu, se aprenderes as maneiras do pântano. Mas suponho que vais aprender depressa, já que trabalhas com fogo.”

Como se uma lâmpada tivesse acendido na mente de Haiti, ela olhou para o horizonte. Viu árvores enormes de um verde escuro profundo, estranhas coníferas, semelhantes a ciprestes, formando uma copa tão ou ainda mais densa que a da floresta circundante. Ao principio julgou que Ingikiwai fosse dar uma curva, mas as margens continuavam direitas. Aliás, à medida que avançavam, as margens afastavam-se cada vez mais uma da outra, como se o rio tivesse a sua foz num lago. As águas pretas começavam a cobrir-se de tapetes de vegetação aquática; lentilhas-d’água e estranhos fetos flutuantes tais como Azolla começaram a formar carpetes verdes, cobrindo a superfície quase sem falha. Ao longe, os troncos das árvores começaram a tornar-se mais visíveis: cresciam da água, e as suas raízes submersas possuíam extensões que chegavam à superfície, formando minúsculas ilhas de madeira.

“Chegamos, Mura.”

_________________________

O vasto Planalto Central é rodeado por várias cordilheiras, isolando as planícies alpinas das terras baixas. É na base montanhosa oriental que se encontra a montanha mais alta, Kōmarumaunga. O seu cume ultrapassa a altitude dos picos circundantes em quilómetros, e está constantemente rodeado por nuvens brancas, ocultando-o aos residentes das planícies ou das florestas. O pico escondido é circular, como se a ponta triangular que é típica nas outras montanhas tivesse sido cortada perfeitamente. Ai, reside um lago de ouro líquido, mais profundo que a própria elevação, mantendo a montanha quente e livre de neve e gelo. Durante o assalto a Hiruhāramānia, tornou-se óbvio aonde era o local de residência dos Pouakai, mas Kōmarumaunga não foi o alvo de quaisquer campanhas militares por parte dos habitantes do Planalto. A altitude e distância mantiveram-na numa fortaleza segura, o mais oportuno dos pontos de guerra.

Acabando a sua meditação noturna, Te Hokioi estendeu as asas pretas e brancas, levantando voo, e deu um grito primordial, ecoando pelas cordilheiras e pelas planícies, inspirando terror em todos os habitantes humanos, e um sentido de dever nos bandos de aves de rapina patrulhando os céus cinzentos. Erguendo-se das suas habitações ocultas em espirais, centenas de Pouakai sobrevoaram o cume e gradualmente pousaram nas margens do lago metálico, baixando a cabeça em direção aos limites da superfície do ouro líquido, numa posição submissa.

Te Hokioi pairou por alguns momentos, inspeccionando quaisquer faltas de comparência, antes de descer para o centro do lago. A superfície solidificou e ergueu-se, formando um trono alto, aonde o Pouakai pousou.

“Guerreiros destemidos,” começou, com uma voz rouca e calma, “estamos aqui reunidos em condições de perda. Venho-me a entender que dois dos nossos compatriotas mais recentes, Korōriahou e Perehou, morreram hoje a tentar intercetar a segunda gota do sangue de Māui, perdendo as suas vidas em Ingikiwai. As suas mortes serão vingadas com fervor, mas hoje havemos apenas de os lembrar e aprender com os seus trágicos erros. É por razões como esta que peço que os mais novos entre as nossas tropas saibam que o vosso valor não precisa de demonstração, que a vossa glória é tanto inerente como inevitável.”

“Julgam que me esqueci do vosso fervor em Hiruhāramānia?” Continuou, com um tom mais encorajador e pessoal, abrindo as asas, “Não houve falhas no vosso dever para a nossa causa. Não há cobardes em Kōmarumaunga. Se querem demonstrar a vossa lealdade, não partam em missões que não são ordenadas por mim. O dever envolve a razão, não apenas a justiça.”

Bateu as asas, ajustando-se ligeiramente.

“Hoje, podem provar a vossa honra. Partiremos imediatamente para os vales, aonde os Patupairehe residem. Ao fim deste dia, ou teremos aliados, ou a punição de heréticos. É no mundo dos vivos aonde a vossa glória será lembrada, e é nos nevoeiros da morte aonde os vestígios das pestes serão extinguidos.”

Levantou voo e gritou novamente, enquanto o trono voltou ao seu estado líquido. Os restantes Pouakai abriram as asas e ergueram a cabeça, gritando em retorno. Planando em círculos por alguns minutos, Te Hokioi elevou-se e mergulhou a pique em direção aos vales, rapidamente acompanhado pelas restantes águias.

***

Os vales das cordilheiras representam a mudança das florestas para as planícies, com matos mediterrâneos esparsos, compostos de faias-austrais e de podocarpos pequenos, assim como de árvores e arbustos mais invulgares, como araucárias. Rios pequenos serpenteiam através do fundo dos vales, rodeados por vegetação densa, que se torna mais aberta à medida que se sobe em altitude.

Voando acima dos vales, o exército de Pouakai planou a uma altitude segura, até Te Hokioi ter avistado o seu alvo. Num segundo apenas, desceu rapidamente, num estado predatório e vicioso, perseguindo algo rapidamente através do ar. Os restantes Pouakai aperceberam-se do alvo, e vários começaram a voar à frente do seu líder, tentando formar um círculo estratégico.

As aves de rapina continuaram a descer, até estarem a planar apenas alguns metros acima das árvores mais altas, e por vezes descendo ao ponto de voarem entre as árvores esparsas. Subitamente, trepadeiras emergiram dos ramos das árvores, movendo-se pelo ar como tentáculos, e agarraram algumas das aves, estrangulando-as até à morte ou torcendo os pescoços. Porém, as plantas foram reduzidas a cinzas por raios de luz branca intensa, emanando dos olhos dos restantes Pouakai. Alguns tentaram fazer o mesmo para o alvo, mas foram brutalmente desencorajados pelo seu líder, que os atacou antes de voltar à perseguição.

Por fim, Te Hokioi estendeu as garras, que começaram a radiar uma luz dourada ardente, e começou a cair, mergulhando entre as árvores, aonde atingiu a sua presa, pousando com um estrondo nas costas da vítima que tombou no chão. Os restantes Pouakai pousaram nas árvores baixas em redor.

Era uma criatura semelhante a um ser humano, mas tinha uma pele branca como marfim, e cabelo era carmesim como sangue, com bases negras. Era magra, com membros longos e finos, e tinha olhos verde-lima, com pequenas riscas vermelhas na íris. O ser em particular era uma mulher jovem, vestindo um manto de penas e folhas castanhas, as garras de Te Hokioi tendo-o perfurando, atingindo as costas, agora sangrando profundamente. Contorceu-se com dor, tentando encontrar uma posição aonde as garras causavam menos dano, mas de outro modo não tentou resistir.

Os restantes Patupaiarehe correram furiosos em direção a Te Hokioi e a sua presa, atirando lanças e pedras. Em apenas um segundo, ave abriu as asas e deu outro grito, criando uma luz intensa que destruiu as armas e cegou a multidão enraivecida. Quando recuperaram a visão, viram os seus membros presos por correntes de luz.

“Lamento ser tão bruto, mas vocês tem apenas vós próprios para se culparem. Adiante, tenho uma proposta a fazer. Ajudem-me a destruir Hiruhāramānia, e não só ei de vos deixar viver, mas também auxiliarei o vosso sucesso, garantindo o regresso da vossa prosperidade.”

A mulher Patupaiarehe contorceu-se novamente. As garras tinham perfurado os pulmões; embora não fosse fatal, não podia regenerar completamente, e por isso sangue começou a inundar as vias respiratórias. E continuava a doer imenso.

“Não podemos…o sangue de Māui…”

Te Hokioi baixou a cabeça, olhando para a presa com curiosidade.

“O que é que Māui tem a ver com isto?”

“O pacto…não podemos matar o sangue de Māui…”

“Então recusam-se a unirem-se contra Hiruhāramānia?” Perguntou, com traços subtis de raiva.

“Sim, não podemos ou queremos lutar!” Disse um Patupaiarehe preso a alguns metros atrás de Te Hokioi. Era uma homem jovem, provavelmente adolescente, as correntes de luz tendo atado os braços às pernas.

“Muito bem. Liberto-vos do vosso dever para com Hinawahine.”

Te Hokioi levantou voo, planando em espiral à medida que ganhava altitude. Os restantes Pouakai também levantaram voo, mas fizeram-no de maneira mais brusca e desesperada, como se tentando fugir das árvores o mais depressa possível.

Alguns Patupaiarehe suspiraram de alívio, mas as correntes não desapareceram. Apercebendo-se da situação, os mais velhos começaram a gritar e a contorcer-se, tendo destruir as correntes. Numa questão de minutos, todos os Patupaiarehe entraram em pânico, gritando e pedindo por misericórdia, implorando aos céus por pena, algo que só fez Te Hokioi rosnar de nojo. A Patupaiarehe capturada por Te Hokioi, agora livre, ergueu-se e moveu os braços, criando mais trepadeiras para tentar destruir as correntes, mas estas foram queimadas pela luz. Entrando em desespero, deixou-se cair, lágrimas correndo pelas faces pálidas.

Geralmente, Te Hokoi voava acima dos seus súbditos, mas os restantes Pouakai ergueram-se o mais alto possível, voando acima dos cumes montanhosos. Te Hokioi planou em círculos acima do vale, calculando a área que seria afetada, e decidiu que era suficiente.

Pairou com esforço mesmo acima dos Patupaiarehe, e deu um grito. Raios de luz intensa emergiram dos olhos e do bico aberto, atingindo o solo. Começaram a aumentar em tamanho, e numa questão de segundos, o vale inteiro foi envolvido numa radiância branca intensa, cegando até mesmo alguns dos Pouakai, embora temporariamente.

Quando a luz desapareceu, tudo o que restava do vale eram rochas queimadas. Cinzas flutuavam no ar e começaram a cair, cobrindo as rochas com vários tons de cinzento e castanho.

Assumindo novamente a posição mais elevada, Te Hokioi e as suas tropas voltaram para Kōmarumaunga.

___________________

Whēuriuri toucou na face metálica do Moai. Era feito de ouro, e os seus olhos choravam lágrimas de um líquido brilhante, semelhante a prata derretida, que tinha formado uma poça à volta da figura. Apesar da sua aparência radiante, possuia uma aura de melancolia, como um estado perpétuo de perda e lamento. Whēuriuri sentia pena da estátua, mas havia pouco que ele pudesse fazer para acabar com a sua infelicidade. Para já, atrasar a tempestade eminente era mais importante.

Whēuriuri suspirou suavemente sobre a runas cravadas, que assumiram uma cor branca, radiando uma luz amarela, como se alguém tivesse filtrado e condensado os raios da madrugada. Sentia o mana a emanar dos símbolos, a força vital de Hiruhāramānia a deslizar suavemente pelo ar, infetando o ar como um miasma sagrado. Em poucos minutos, a sala inteira estava illuminada com uma radiância austera, permeando-a como se não tivesse fonte senão o próprio ambiente, todas as sombras morrendo. Whēuriuri respirou este ar, sentindo os pulmões, a garganta e o sistema da boca e narinas mais leves e secos com cada inspiração. Sentido os seus braços mais relaxados, o príncipe ergueu as palmas das mãos, agora brancas como ossos, e subitamente delas emanou uma explosão. Mesmo as pálpebras fechadas não impediram a cegueira temporária, mas o príncipe atordoado soube que o feitiço resultou, pois nas suas orelhas sentiu o bater de asas, que agora circundavam o Moai como um manto plumáceo.

Whēuriuri saiu do santuário, ainda zonzo por causa da luz dos encantamentos, mas movendo-se sem problemas, mesmo que sua a visão estive turva. A sala estava directamente ligada aos seus aposentos, separada apenas por uma porta de bronze. Sentou-se na cama, respirando profundamente enquanto a mente e os olhos voltavam ao normal.

Outro par de portas, mais elaborado, feito de madeira revestida com prata, conectava o quarto a um corredor por detrás da ala principal. Nelas estavam cravadas várias séries de imagems, retratando a história de Hinawahine. Do lado exterior, as portas receberam vários pequenos murros.

“Espera só um boca-…”

A porta abriu-se com um estrondo.

“…do.”

“O que se passou?” perguntou Aata, juntando-se a Whēuriuri na cama, abraçando-o.

“Nada de especial. Criei um encantamento para proteger o Moai. Não preocupes, só estou um bocado cansado.”

“Espero bem que seja só isso. Não quero que te comecem a pedaços de metal outravez.”

“Ah, não. Provavelmente só vou começar a sangrar dos olhos ou algo do género.”

“Vá, não brinques com isso. Olha que te ainda pode acontecer mesmo.”

“Olha que não me importo, a sério.”

Aata deu um pequeno falso-murro no ombro, respondido com um falso choro. Mas o general interrompeu as brincadeiras e abraçou o príncipe com mais força, preocupado.

“Estás a pensar em Raiti?”

“Ela está cada vez mais determinada, mais demente. Tenho medo que ela tente algo.”

“Desde que o povo continue a meu lado, o que ela quer não é importante.”

“Mas é importante! Ela já começa a espalhar acusações, a tentar espalhar resentimento.”

“E no entanto não fazem nada. Não podem, a não ser que se queiram enfurecer Ao, que francamente começo a compreender menos. Não me leves a mal, eu sei que Raiti é problemática, e ela há de ajustar contas para a minha pessoa, mas agora preferia lidar com as águias, que não têm votos para não matar.”

Antes que Aata podesse responder, Whēuriuri passou suavemente a mão pelo seu flanco esquerdo.

“Estiveste a lutar?”

“Ah, não, só me raspei a vir para aqui.”

“Para um veterano, às vezes tens menos cuidado que uma criança.”

“Vá, não sejas hipócrita.”

No comments yet

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: