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Paradisea: Sonho Profético

August 12, 2012

Uma noite, tinha acordado, por assim dizer, no reino surreal de Morfeu. Era dia, o céu estava azul e branco, a baixo de mim estendiam-se planícies e savanas. E eu era um abutre, planando sem esforço nas correntes termais.
Atravessando os céus luminosos, memórias inexistentes ocorreram-me. Tinha em tempos sido venerado por toda a terra, uma ave sagrada a muitas culturas. Aos egípcios, eu fui Nekhbet, a guardiã do Faraó, e a todos os filhos do Nilo era uma mãe, as asas abertas para os acolher, ao lado da deusa-cobra, minha amante. Ao povo da Índia, fui Sampati e Jatayu, os irmãos divinos, que, de forma semelhante a Ícaro, voaram demasiado perto do Sol, Sampati sacrificando as asas para salvar o irmão, e Jatayu mais tarde morrendo nas mãos do demónio Ravana. Aos povos das Américas, fui o guardião da paz, na minha relutância a matar para me sustentar, e cheguei mesmo a ser o Deus do Sol aos Incas.

 

E num só dia, todos me odiavam. Chamavam-me “demónio da gula”, carniceiro, profeta da morte, inimigo do Leão, que passou de assassino cruel a rei não apenas dos animais, mas do próprio Sol. Quão triste que os monstros se tornem objectos de veneração. Simplesmente deixei o local, mas mesmo aonde tinha segurança, pedras foram lançadas e facas cortaram a minha carne. Fugindo para o firmamento, lágrimas correram pelas minhas faces de ave, e solucei um bocado.

 

Aquilo era familiar, tão familiar que senti as fibras do meu ser a gritar de desespero.

 

Desci da segurança divina do ar para o chão vazio da planície. Uma lebre-macho olhou para mim. Cortes adornavam a carne peluda. Lágrimas de sangue corriam pelo focinho. O meu coração ficou pesado, pois algo me dizia que a lebre era também uma pessoa – ou símbolo de uma pessoa – nesta mesma situação.

 

“Quem é que te fez isso?” perguntei suavemente, aproximando-me calmamente.

 

Possuída pelas lágrimas, a lebre enterrou a sua cabeça no peito emplumado, tentando uma paródia de abraço com as patas felpudas, algo que as minhas asas fizeram melhor. A lebre chorou por bastante tempo, tornando óbvia a gravidade do seu predicamento. Eu simples suspirei salmos, aliviando o mamífero aos poucos, até estar calmo, simplesmente tentando encontrar sustento no meu carinho.

 

“Fui….foram os meus pais que fizeram isto. Pensava que me amavam, e julgo que eles pensam que me amam também, mas aparentemente o amor não fale nada. Hipócritas, a dizerem que amam todos, e deitam-me fora e magoado por que eu amo alguém.”

 

“Quem é que amaste?”

 

Levantando a cabeça – que subitamente achei atipicamente adorável – a lebre sorria suavemente, os seus olhos chorando lágrimas de esperança.

 

“Tu, meu amado, meu príncipe, minha sombra quando o Sol é fogo e minha luz quando a noite é petróleo. Amo-te apenas a ti, e amar-te-ei mesmo que me vejas como o lixo que eu sou.”

 

E, aquando da descida da minha cabeça e aquando da subida da cabeça da lebre, um beijo nasceu do caos da colisão.

 

***

 

Acordei subitamente. Não era um pesadelo – pelos menos não para mim – mas porque senti um calor enorme dentro de mim, como se o Sol tivesse-me invadido. A energia escapo-me pela boca e pelos olhos, como raios de luz intensa, dissipando-se na escuridão do meu quarto.

Ao meu lado, na cama, estava um rapaz, de cabelo castanho claro, a dormir junto a mim. Estávamos ambos nus, embora não tivesse a certeza que tenhamos feito amor. O corpo do meu companheiro estava coberto de feridas, como a lebre no sonho.

Voltei a enrolar-me nos lençóis.O “intruso” era bastante fofo, e parecia precisar de um abraço, algo que lhe deu de boa vontade.
Acordando ligeiramente, ele abraçou-me também, e voltamos rapidamente para o mundo dos sonhos.

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