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Paradisea: Os Tronos

August 10, 2012

Era meia-noite, embora, na orla europeia do Circulo Polar Árctico, o céu ainda estava a arder num crepúsculo laranja. O Sol estava cortado a meio, no horizonte marinho, e não iria mais fundo que isso. Em breve, regressaria aos céus, pois o Verão polar ainda estava a começar.

Numa rocha, agora fria, estava sentado Svipdagr. Os cabelos e barba brancos tinham um tom dourado, uma paródia do cabelo louro de outrora; tal é o humor do Sol poente. Os olhos azuis traçavam a superfície marinha, raios invisíveis de uma luz inexistente. Por momentos, julgou que o cérebro pifou de vez, mas pensamentos pervertidos regressaram à sua mente, e lembrou do triste fado do seu sistema sanguíneo. Inspirando mais tabaco, meditou na sua incompetência.

Mais abaixo, na areia, estavam as suas netas. A mais nova explorava as rochas, coleccionando tesouros marinhos. A mais velha ia atrás, vigilante como um cão, embora as responsabilidades tivessem sido invertidas. A suas pernas e braços estavam coroados de nódoas negras.

“Mais depressa Sophie!” disse a mais nova, impaciente.
Sophie anotou mentalmente a promessa de estrangular a irmã mais tarde.

Subitamente, um caranguejo enorme saiu de uma poça e “mordeu” o pé esquerdo com uma pinça. Tombando contra várias rochas, Sophie ganhou mais outras quatro tatuagens naturais. Derrotada, coxeou para a relva mais acima, deitando-se na toalha púrpura. Que a irmã fosse devorada pelo oceano, que ela já não queria saber! Martha recebeu esta mudança com alegria, já não tendo que abrandar nas sua correria pela zona de rebentação.

Descendo a pique do ar, uma coruja-das-neves colidiu com Sophie, deixando marcas de garras antes de se elevar novamente. Cobrindo-se com outra toalha, a rapariga perguntou-se a si própria que raio fez noutra vida.

***

Ao longe, na superfície do oceano, uma figura pairava sobre o mar. Transparente na luz do Sol poente, parecia, de certa forma, nevoeiro marinho, embora parece-se radiar ligeiramente com tons de prata. A sua forma era difusa, por vezes parecendo humana, por vezes um golfinho, por vezes uma lebre ou alguma ave, marinha ou terrestre, e por vezes apenas uma massa disforme, como um vento visível.

Lentamente, foi-se aproximando da costa, movendo-se com cautela. Se tinha olhos, pareciam ser indistintos do resto do seu “corpo”, mas estava a observar Martha, vendo de formas que torceriam os olhos a qualquer ser de carne e osso.

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