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Kōmarumaunga

April 29, 2012

O vasto Planalto Central é rodeado por várias cordilheiras, isolando as planícies alpinas das terras baixas. É na base montanhosa oriental que se encontra a montanha mais alta, Kōmarumaunga. O seu cume ultrapassa a altitude dos picos circundantes por três mil metros, e está constantemente rodeado por nuvens brancas, ocultando-o aos residentes das planícies ou das florestas. O pico escondido é circular, como se a ponta triangular que é típica nas outras montanhas tivesse sido cortada. Ai, reside um lago de ouro líquido, de grande profundidade, mantendo a montanha quente e livre de neve e gelo.

Durante o assalto a Hiruhāramānia, tornou-se óbvio o local de residência dos Pouakai, mas Kōmarumaunga não foi o alvo de quaisquer campanhas militares por parte dos habitantes do Planalto.

Te Hokioi estendeu as asas pretas e brancas, levantando voo, e deu um grito primordial, ecoando pelas cordilheiras e pelas planícies, inspirando terror em todos os habitantes humanos, e um sentido de dever nos bandos de aves de rapina patrulhando os céus cobertos de nuvens. Centenas de Pouakai pousaram nas orlas do cume, nas margens do lago metálico, baixando a cabeça em direção aos limites da superfície do ouro líquido, numa posição vertical submissa.

Te Hokioi planou por alguns momentos, inspecionando quaisquer faltas de comparência, antes de descer para o centro do lago. A superfície solidificou e ergueu-se, formando um poleiro alto, aonde o Pouakai pousou.

“Irmãos e irmãs” começou, com uma voz rouca e calma, “Estamos aqui reunidos em condições de perda e de esperança. Venho-me a entender que dois dos nossos guerreiros mais novos, Korōriahou e Perehou, morreram hoje a tentar intercetar a segunda gota do sangue de Māui em Ingikiwai. As suas mortes são vingadas com fervor, mas hoje havemos de aprender. É por razões como esta que peço que os mais novos entre as nossas tropas saibam que o vosso valor não precisa de demonstração.”

“Julgam que me esqueci do vosso fervor em Hiruhāramānia? “ Continuou, com um tom mais encorajador e pessoal, abrindo as asas, “Não houve falhas no vosso dever para a nossa causa. Não há cobardes em Kōmarumaunga. Se querem demonstrar a vossa lealdade, não partam em missões que não são ordenadas por mim. O dever envolve a razão, não apenas a justiça.”

Bateu as asas, ajustando-se ligeiramente.

“Hoje, podem provar a vossa honra. Partiremos imediatamente para os vales, aonde os Patupairehe residem. Ao fim deste dia, ou teremos aliados, ou a punição de heréticos!”

Levantou voo e gritou novamente, enquanto o poleiro voltou ao seu estado líquido. Os restantes Pouakai abriram as asas e ergueram a cabeça, gritando em retorno. Planando em círculos por alguns minutos, Te Hokioi elevou-se e mergulhou a pique em direção aos vales, levando as restantes águias a levantar voou atrás dele.

***

Os vales das cordilheiras representavam a mudança das florestas para as planícies, com matos mediterrâneos esparsos, compostos de faias-austrais e de podocarpos pequenos, assim como de árvores e arbustos mais invulgares, tais como araucárias. Rios pequenos serpenteiam através do fundo dos vales, rodeados por vegetação densa, que se torna mais aberta à medida que se sobe em altitude.

Voando acima dos vales, o bando de Pouakai planou a uma altitude segura, até Te Hokioi ter avistado o seu alvo. Num segundo apenas, desceu rapidamente, num estado predatório. Os restantes Pouakai aperceberam-se do alvo, e vários começaram a voar à frente do seu líder, tentando formar um círculo à volta do alvo.

As aves de rapina continuaram a descer, até estarem a planar apenas alguns metros acima das árvores mais altas, e por vezes descendo ao ponto de voarem entre as árvores esparsas. Subitamente, trepadeiras emergiram dos ramos das árvores, movendo-se pelo ar como tentáculos, e agarraram algumas das aves, estrangulando-as até à morte ou torcendo os pescoços. Porém, as plantas foram reduzidas a cinzas por raios de luz branca intensa, emanando dos olhos dos Pouakai.

Por fim, Te Hokioi estendeu as garras, que começaram a radiar uma luz dourada ardente, e atingiu a sua presa, pousando com um estrondo nas costas da vítima que tombou no chão. Os restantes Pouakai pousaram nas árvores baixas.

Era uma criatura semelhante a um ser humano, mas tinha uma pele branca como marfim, e cabelo era exatamente do mesmo tom de vermelho que o sangue. Era magra, com membros longos e finos, e tinha olhos verde-lima, com pequenas riscas vermelhas na iris. O ser em particular era uma mulher jovem, vestindo um manto de penas castanhas, as garras de Te Hokioi tendo-o perfurando, atingindo as costas, agora sangrando profundamente. Contorceu-se com dor, tentando encontrar uma posição aonde as garras causavam menos dano, mas de outro modo não tentou resistir.

Os restantes Patupaiarehe correram furiosos em direção a Te Hokioi e a sua presa, atirando lanças e pedras. A ave abriu as asas e deu outro grito, criando uma luz intensa que destruiu as armas e cegou a multidão enraivecida. Quando recuperaram a visão, viram os seus membros presos por correntes de luz.

“Lamento ser tão bruto, mas vocês tem apenas vós próprios para se culparem, sendo notoriamente elusivos. Adiante, tenho uma proposta. Ajudem-me a destruir Hiruhāramānia, e não só ei de vos deixar viver, mas também auxiliarei o vosso sucesso, garantindo o regresso da vossa prosperidade.”

A mulher Patupaiarehe contorceu-se novamente. As garras tinham perfurado os pulmões; embora não fosse fatal, não podia regenerar completamente, e por isso sangue começou a inundar as vias respiratórias. E continuava a doer imenso.

“Não podemos…o sangue de Māui…”

Te Hokioi baixou a cabeça, olhando para a presa com curiosidade.

“O que é que Māui tem a ver com isto?”

“O pacto…não podemos matar o sangue de Māui…”

“Então recusam-se a unirem-se contra Hiruhāramānia?” Perguntou, com traços subtis de raiva.

“Sim, não podemos ou queremos lutar!” Disse um Patupaiarehe preso a alguns metros atrás de Te Hokioi. Era um homem jovem, provavelmente adolescente, as correntes de luz tendo atado o seu braço esquerdo a uma faia-austral.

“Muito bem. Liberto-vos do vosso dever para com Hinawahine.”

Te Hokioi levantou voo, planando em espiral à medida que ganhava altitude. Os restantes Pouakai também levantaram voo, mas fizeram-no de maneira mais brusca e desesperada, como se tentando fugir das árvores o mais depressa possível.

Os Patupaiarehe respirando de alívio, mas as correntes não desapareceram. Apercebendo-se da situação, os mais velhos começaram a gritar e a contorcer-se, tendo destruir as correntes. Numa questão de minutos, todos os Patupaiarehe entraram em pânico, gritando e pedindo por misericórdia. A Patupaiarehe capturada por Te Hokioi, agora livre, ergueu-se e moveu os braços, criando mais trepadeiras para tentar destruir as correntes, mas estas foram queimadas pela luz. Entrando em desespero, deixou-se cair, lágrimas correndo pelas faces pálidas.

Geralmente, Te Hokoi voava acima dos seus súbditos, mas os restantes Pouakai ergueram-se o mais alto possível, voando acima dos cumes montanhosos. Te Hokioi planou em círculos acima do vale, calculando a área que seria afetada, e decidiu que era suficiente.

Pairou com esforço mesmo acima dos Patupaiarehe, e deu um grito. Raios de luz intensa emergiram dos olhos e do bico aberto, atingindo o solo. Começaram a aumentar em tamanho, e numa questão de segundos, o vale inteiro foi envolvido numa radiância branca intensa, cegando até mesmo alguns dos Pouakai, embora temporariamente.

Quando a luz desapareceu, tudo o que restava do vale eram rochas queimadas. Cinzas flutuavam no ar e começaram a cair, cobrindo as rochas com vários tons de cinzento e castanho.

Erguendo-se no ar, Te Hokioi e as suas tropas voltaram para Kōmarumaunga.

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