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Novel work

April 22, 2012

Há muito tempo atrás, a humanidade chegou a Sawaiki, a ilha mais ao norte nos oceanos que envolvem o mundo num manto. Nesta ilha, havia de tudo que a humanidade precisava; frutas nos ramos e tubérculos nas raízes, aves grandes no ar e nas sombras das árvores, chuva mínima mas nevoeiros húmidos, um Sol calmo e o mínimo possível de doenças, todas com uma cura. As vidas eram até longas, os habitantes chegando a viver tanto quanto os tuataras.

Talvez não seja preciso dizer que o Paraíso foi temporário, um cliché até mesmo nas nossas lendas. Cortada do resto do mundo em Sawaiki, era difícil para a humanidade de fugir se as coisas piorassem, e foi isso que obviamente aconteceu; para celebrar o Paraíso terreno, os nossos antepassados criaram estátuas, os gloriosos Moai, criando feridas nas montanhas. A necessidade para transportar rochas, assim como o apetite dos kiore, vieram para servir como rações de emergência, destruíram as florestas da ilha. Com elas foram-se as aves, os frutos e as raízes, as curas para as doenças.

Talvez não seja muito surpreendente que, na ausência dessas coisas, a humanidade ancestral entrou num estado de caos, fome, lutas, competição, canibalismo. Os Moai assistiram a sacrifícios humanos desesperados, suplicando a poderes divinos por perdão e salvação, por fuga ou para que Sawaiki volta-se a ser o Paraíso que dantes era, que a terra árida voltasse a ser floresta húmida, que os esqueletos das aves e dos répteis tivessem carne para evitar que as crianças fossem desmembradas e comidas cruas, que as ervas medicinais voltassem a crescer para que as doenças que apodreciam as tripas e os músculos e os parasitas que infestavam cada orifício morressem em vez dos doentes, que os nevoeiros regressassem e que o Sol volta-se a ser calmo em vez de radiar luz ardente como chamas.

Talvez não fosse inesperado que os deuses respondessem, talvez por pena, talvez porque precisavam de uma fonte de veneração para manter a sua força, talvez por motivos para lá da compreensão humana, ou até mesmo todas as razões mencionadas. Nas costas surgiram várias Hōkūleʻa, maiores que todas as que tinham sido construídas até então e ainda maiores que todas as que foram construídas posteriormente, puxadas pelos deuses do mar.

A dos nossos antepassados era Matahouroa, puxada por Ka-moho-aliʻi, o deus tubarão. A grande Hōkūleʻa foi dar às costas da ilha mais ao sul nos mares do mundo. Recebeu o nome de Hinawahine, a “mulher de cabelo cinzento”, devido aos nevoeiros prateados ao longo da costa. Aqui foi-nos dada uma segunda oportunidade, e agora somos prósperos. Havia, num entanto, um senão no contrato: relembrar o Paraíso perdido. Cinco Moai foram construídos, honrando os deuses que têm domínio sobre os nossos mortos, que regressam a Sawaiki.

Raiti pousou o documento. A falta de eloquência no documento ordenou aos lábios um sorriso ligeiro; mesmo que cerca de vinte invernos tivessem passado desde que os caracteres tivessem sido inscritos, ainda não conseguia escrever algo que, na sua mente, não soasse como garras a rasgar os tímpanos, a desvendar os mistérios por detrás da membrana da maneira mais sangrenta.

Paciência. Não era o seu trabalho; o Aomārama não iria depender de perfeição abstracta, apenas de perfeição tangível, a distinção do branco nos ossos e do branco na luz do Sol. Não iria haver possivelmente sequer a necessidade dos sentidos.

A sala estava apenas iluminada pela luz da Lua, cuja face estava perfeitamente divida entre a luz e a escuridão. Numa questão de dias, as sombras iriam desvanecer completamente. Aliás, seriam as últimas noites em que sombras governariam a Lua; a face de prata seria permanentemente branca. Uma consequência mínima do Aomārama.

Raiti pegou no seu bastão, e fechou os olhos. Um breve pensamento foi suficiente; esforço nenhum foi necessário, tendo em conta que Hiruhāramānia, na sua localização nas planícies alpinas do planalto central de Hinawahine e na sua função como o centro da civilização e da fé em Ao, era mais nada que uma fonte, que uma lâmpada por onde a radiância ancestral emanava, permeando os ventos em redor.

O resultado do feitiço foi uma faísca, sucedida pela formação de uma mariposa de luz. O insecto planou em círculos, testando as novas asas, antes de se elevar e sair pela janela, juntando-se ao brilho lunar. As asa batiam levemente e mais lentamente que as asas de um insecto verdadeiro, cortando o ar nocturno de maneira mais precisa. Algumas traças voaram de encontro à mariposa reluzente, como se de uma lanterna se tratasse, eventualmente tapando a luz. Os insectos passaram acima da orla montanhosa à volta do planalto, e mergulharam nas trevas das florestas das terras baixas.

Um minuto depois, Raiti soube que a mariposa chegou ao seu destino.

___________________________________________________________________________________

General Kōurahou,

A luz arrogante da Lua é, ironicamente, o presságio do nosso sucesso. Apercebo-me de que as sombras não vão mais obscurecer a face branca. O balanço é absoluto; à combustível tanto para Hiruhāramānia como para nós. Sei, também, que não estão cientes da minha chegada. É altura de exercer o meu dever para as planícies.

Quero que concentres as tuas forças na ponta nordeste do planalto, aonde os rios começam a fundir-se. Hiriwapā, e o resto da linha de povoamentos ao longo da borda ao norte, irá cair. Mandei reforços a seguirem o Ingikiwai, que devem chegar numa questão de horas; mais duas vagas vão chegar amanhã, seguidas por uma terceira e quarta no dia a seguir.

Preciso que ataques por cerca de cinco dias, e tenta ao máximo dar a impressão que as nossas forças estão focadas no norte. Eu estou em Kōmarumaunga; deves adivinhar o que planeio fazer.

Espero que esta guerra seja como um relâmpago; que irá acabar tão depressa como começou. Faz como eu digo, e mais serão as testemunhas da aurora.

Tem fé em ti,

Te Hokioi

***

Cara Raiti,

Apesar dos nossos esforços anteriores para manter uma posição neutral, decidimos aceitar a sua proposta. Julgamos que a senhora demonstra imensa circunspecção, e é do nosso melhor interesse ajudá-la.

Iremos mandar cinco representantes (eu próprio entre eles), que virão a seguir o rio. Como deve adivinhar, pedimos que Kiwitea baixe a guarda; embora tenhamos paciência e aceitemos alguns erros, é do seu melhor interesse que não nos enfureça.

Enviando os nossos melhores cumprimentos,

Purūpī dos Parekareka

***

Suprema Elegância,

Nunca duvidei da sua magnífica prudência, e vejo a radiante glória dos seus planos. A destruição de Hiriwapā foi rápida e demonstrou resultados positivos imediatamente. Caiu em menos que uma hora; os Kahuna e e Ali’i locais demonstraram nada senão inferioridade aos nossos guerreiros, tornando-se o símbolo da decadência do sistema de castas. As nossas nobres tropas têm sustento em água e carne, e vamos atacar Mangokāinga daqui a meia hora.

Interceptamos os Kererū enviando as mensagens de socorro, por isso estamos confiantes que as planícies estão ignorantes à queda de Hiriwapā. Sei o o sucesso da sua estratégia depende que Hiruhāramānia tenha conhecimento da queda destes povoamentos; isto foi apenas para dar descanso às tropas. Após a queda de Mangokāinga, irei para o extremo oeste desta linha de povoamentos, e subsequentemente vou dividir as tropas.

Não sei se preciso de mais reforços para esta estratégia; tendo em conta a função destes ataques, será a vitória de batalhas individuais necessária? Para dar a impressão que bombardear a área com tropas é vital, é de maior importância criar desespero.

Com admiração,

General Kōurahou

***

Caro Aata,

Os Parekareka finalmente obedeceram à razão, e vêm a subir o rio. Kiwitea não os vai atacar, mas não foi por minha causa.

O Taniwha disse-me que sente presenças nas montanhas, Aata. Alguém vem atacar-nos, e Kiwitea não nos vai defender.

Digo-te, o Aomārama está a chegar. Hiruhāramānia será aonde Ao irá começar a banhar a existência com luz, e é vital que esta cidade seja pura. Defende os devotos e espalha a palavra; com o fogo sagrado iremos renascer das cinzas!

Glória a Ao,

Raiti

***

Pouakai! Pouakai!

***

General Aata,

Vimos com os nossos próprios olhos a desgraça em que Hiriwapā caiu. As casas estão queimadas e partidas, e os cadáveres adornam os terrenos. Quase todos têm marcas de garras no crânio ou na caixa torácica, como se mãos tivessem apertado e esmagado esses ossos, e em todos há evidência que algo os comeu, deixando apenas consistentemente a carne das mãos e pés, e tenho quase toda a certeza que não foram Kea ou ʻAlalā ou outros necrófagos.

Julgo que foram mesmo Pouakai. Julgo que já não são apenas águias solitárias, mas monstros a destruir as nossas aldeias.

Como é que havemos de destruir estas ameaças? Os Kawau já são problemas que cheguem nos pântanos, quanto mais os Pouakai.

Haki

***

General Aata,

Como sempre, a minha fé confirma a chegada do fim do mundo. Devemos proteger Hiruhāramānia custe o que custar!

A aliança com os Parekareka ocorreu no momento mais oportuno. Tenho fé que havemos de vencer aos demoníacos Pouakai, e que os céus irão abrir com luz divina e revelar a derradeira luz!

Sua Majestade irá arrepender-se da sua amoralidade, mas será demasiado tarde quando a verdade atingir o mundo!

Apenas Ao triunfará,

Raiti

***

Suprema Elegância,

Agimos de acordo com a sua gloriosa estratégia, mas parece que não há frutos para colher.

As nossas tropas destruíram todos os povoamentos ao norte, mas não há sinal de tropas humanas a virem nesta direcção. Os nossos guerreiros chacinaram a população com resistência mínima, ao ponto que muitos entre nós ficaram revoltados com a falta de auxílio na parte do inimigo.

Julgo que se aperceberam do plano, e focaram o seu exército em Hiruhāramānia. Os cobardes sem honra muito obviamente não têm consideração pelos seus súbditos. Se alguma fez duvidei da moralidade da nossa cruzada, agora de certeza não duvido; estes imorais sacos de carne podre vão pagar pelo seu egoísmo!

Com a sua permissão, eu e as minhas tropas vamos ter consigo em Kōmarumaunga; a sua nobre conquista de Hiruhāramānia terá o nosso auxílio para lá da morte! Antes morrer por uma causa gloriosa do que viver sabendo que tal imoralidade como a dos governantes de Hiruhāramānia existe!

A minha vida pertence-lhe,

General Kōurahou

***

Whēuriuri,

Raiti fica cada vez mais insana a cada dia que passa. Ela teve a audácia de forçar a falta de auxílio, e aterroriza-me a ideia que ela crie uma revolta contra ti.

Deixa-me estar a teu lado. Deixa-me proteger-te. Eu tento seguir a mim honra ao máximo, mas não consigo focar-me quando sinto que estás em perigo. Ainda pior agora que os Parekareka estão quase a chegar, e adivinha quem os enviou.

Amanhã foi ter contigo. Não ouvir a palavra “não” nas cartas ou nas minhas orelhas. Se o inimigo for de facto Pouakai como a cara de lanterna diz, o ataque será aéreo, e será o palácio que estará em maior perigo.

Amo-te,

Aata.

***

Caro Hinuhou,

Custa-me imenso a admitir, mas preciso da tua ajuda. Os bárbaros Pouakai decidiram armar-se em bons da fita e matar os humanos “imorais”, ainda por cima agora que a sacerdotisa doida está a pensar em causar o Aomārama. Por mais que a tua espécie nojenta não seja mais que uma paródia da magnificência dos Parekareka, prefiro mil vezes ter de viver no mesmo mundo que tu do que viver num mundo em que os Pouakai tenham o poder para exercer as morais patéticas deles e parar as minhas experiências.

Espero que tenhas bom senso e me envies reforços dos pântanos, vivos ou mortos-vivos. É do teu melhor interesse ajudar os humanos, e é do teu melhor interesse garantir que eu viva.

Espero que sejas um membro inteligente da tua espécie e vejas que tenho razão.

Impacientemente à espera,

Purūpī dos Parekareka

***

Purūpī,

Dá-me imenso prazer que estejas a sofrer, snobe especista! Não imaginas o quão invejo os Pouakai!

Todavia, infelizmente tens razão. Estou dependente de Hiruhāramānia e dos seus mercados, e os Pouakai são ainda mais insuportáveis que tu. Recentemente, um bando desses extremistas atacou o meu bando em Wairepomangu, e só consegui escapar graças a Ataata. Tudo por causa de eu ter usado o cadáver de um dos generais deles como suporte para os meus chapéus. Se uma coisa tão mínima causa raiva neles…

Mandei o meu sobrinho ir ter contigo, juntamente com os meus mortos-vivos mais fortes. É do teu melhor interesse que não sejam destruídos (o sobrinho e os mortos-vivos).

Hinuhou

***

Querido Mura,

Com grande orgulho mando-te, na tua primeira missão, a Wairepomangu, para que encontres a mulher conhecida como Ataata, e a tragas a Hiruhāramānia, pois ela é vital na nossa vitória. Hatiti vai contigo; noutra ocasião eu mandaria Aata, mas o tolinho não me quer largar. Faz ele bem.

Podes pensar que isto é uma desculpa para te manter seguro, mas olha que não. Sei que tens andado preocupado, que tens medo que pessoas como Raiti destruam aquilo que a nossa família construiu, e que mudem tudo para pior. Tens boas razões para te preocupar, mas não desesperes. Assim que Ataata estiver aqui, prometo que tudo isto vai ser apenas uma memória.

Vais seguir o Ingikiwai a norte esta tarde; Hatiti vai ter contigo e dizer-te o que fazer. Tenho fé em ti, e eu gostava de poder despedir-me com um abraço e ternura, mas sabes que ser frio hoje é para o bem de todos.

Que Ka-moho-aliʻi te proteja,

Whēuriuri.

***

Caro Aata,

Na minha vida como sacerdotisa de Ao, já vi muitas coisas estranhas, mas um nojento Kawau e o ser exército de tartarugas mortas-vivas virem a Hiruhāramānia com a função de ajudar os Parekareka é de facto a coisa mais bizarra que já me ocorreu.

Embora tenha a mesma opinião que os Parekareka acerca dos Kawau, decidi tolerar a ave imunda; o pragmatismo é algo necessário, não importa o quão horrendo.

O teu amor pelo monarca em preto começa a enervar-me, mas isso é algo que cabe a Ao destruir. Pobre Mura vai à caça de feiticeiras pretas em pântanos; não sei o que é pior, a sua cobardia ou a possibilidade de trazer ainda mais escuridão ao trono!

Os Pouakai virão amanhã de manhã; concentra os arqueiros à volta da tua flore maldita, enquanto a luz do meu bastão e dos Parekareka e a escuridão do Kawau resolvem os problemas aqui.

Sinceramente,

Raiti.

***

Purūpī,

És um completo idiota!

Arruinaste as minhas Meiolania! Sabes o quão difícil é arranjar carcaças de Meiolania!?

Como já te deves ter apercebido (ou não, visto que és praticamente cego), mandei o meu sobrinho de volta; o herdeiro real segue o rio em direcção aos meus pântanos, aparentemente com a intenção de trazer a nossa Ataata para o palácio em que te preguiças. Com alguma sorte, terei um cidade inteira de cadáveres para compensar a tua estupidez.

Espero que te cortem a garganta e fertilizem o teu esófago.

Hinuhou

***

Cara Raiti,

Mais uma fez agradeço-te pela a ajuda em combate, a cidade de Hiruhāramānia está mais uma fez em dívida.

Todavia, estás a passar os limites que a tua posição oferece.

Os teus insultos a Whēuriuri não só estão a tornar-se menos subtis, como também começo a ouvir rumores de que já não são privados.

Como se isso não basta-se, agora insultas Mura, quando ele está a arriscar a própria vida para salvar a tua pele.

Basta. Não vais mais insultar as pessoas que eu amo.

Vais estar mais vigiada. Não penses sequer que te safas a planear a queda do meu amor; criei uma lâmina destinada à tua garganta se tentares algo nefasto.

Aata

***

Queridos Aata e Whēuriuri,

Já estamos em Ingikiwai. A descida do planalto foi relativamente calma; os Patupaiarehe não nos atacaram, aliás pareciam olhar-nos de forma encorajadora. Mas vá-se lá saber aquilo que pensam.

Chegamos às docas ao fim do dia. Deixamos as moas ao cuidado de Aherenika, que é uma amiga minha. É aquela rapariga com madeixas douradas que de vez em quando aparece quando trazem as tintas. Gostava que não houve-se tanta coisa a acontecer agora, pois deviam convidá-la.

Adiante, passamos a noite na casa dela, visto que ela é filha do capitão local. Ele é um tipo simpático, e tem bom humor. Comemos bem; o prato principal foi um celacanto enorme, quase não cabia na mesa! Peixes como esse já não se vê muito, e sinto-me mal por ter-mos comido de uma coisa tão rara quando Aherenika e o pai dela devia ter feito mais proveito dela, sendo que foram eles que tiveram o trabalho todo. Bom, pelo menos Mura gostou. Ele já conhecia Aherenika desde há um ano ou dois, por isso não era um estranho, e deu-se bem com o capitão. Fomos deitar-nos cedo, eu e Aherenika no quarto dela e Mura com o capitão no quarto dele. Caso estejam a pensar nisso, nós só conversamos e dormimos, mais nada. Pelo menos eu e Aherenika, seja como for.

Acordei pessimamente, graças ao maldito galo, mas partir mais cedo certamente não faz pior. O capitão não pôde vir connosco, mas pelo menos a tripulação é decente. Já tinha conhecido alguns deles antes, sei que são confiáveis.

Mura continua um bocado amuado. Pelo menos esteve a fazer amigos com a tripulação, que é bom. Devo confessar que não sei se é boa ideia confiar em Ataata, mas tenho fé que pelo menos não será perigoso. Afinal, Mura sempre tem jeito no fogo.

Bom, eis o relatório do que aconteceu até agora. Espero a vossa carta.

Beixos,

Hatiti.

***

Caro Hinuhou,

Estou bem ciente da lista de atrocidades que cometeste. Não julgues que vais escapar sem pagar o preço que as tuas maldades exerceram sobre Hinawahine.

Todavia, posso tornar o teu castigo menos severo que colaborares comigo.

Mata Ataata.

Sinceramente,

Te Hokioi.

______________________________________________________________________________________

Correndo a Este do, e em paralelo ao Planalto Central, Ingikiwai é considerado o seu oposto. Nascendo no extremo Sul dos terrenos elevados, move-se para Norte, alimentado pelos milhares de riachos descendo das montanhas ao longo do seu percurso, e pelas dádivas de chuva constante, trazidas pelo oceano e despejadas no rio, incapazes de ultrapassar as catedrais de pedra. Sempre junto à base do Planalto, vê-se rodeado de florestas densas; faias-austrais e podocarpos são as árvores dominantes, mas junto a Ingikiwai há bosques de gingkos e fetos arbóreos, ambos de um verde-claro, quase lima, em contraste o tom escuro das árvores mais comuns. Abaixo destes, fetos mais pequenos, juncos e cavalinhas cobrem as margens, ocultando a lama negra.

Ingikiwai, como a maioria dos rios, está cheio de sedimentos, tornando a água castanha. Porém, as suas águas possuem um estranho tom verde-escuro, mesmo filtradas da sua carga, e a combinação com os sedimentos resulta num tom negro, semelhante a óleo. O seu nome reflete esse estado: “água de tinta”. São estas águas escuras que abastecem os pântanos negros de Wairepomangu no Norte tropical, juntamente com o rio do Planalto, Kiwiteawai.

Nos dias anteriores ao ataque a Hiruhāramānia, números Pouakai sobrevoaram Ingikiwai, seguindo o rio no seu percurso. Agora, outra figura estava a voar sobre o rio.

Era um corvo-marinho, a sua envergadura chegando aos três metros. As suas penas negras estavam em vários níveis de deterioração; quase todas as penas das asas tinham perdido bárbulas e barbas – e se não as tinham perdido, estavam desleixadas, separadas umas das outras -, ou tinham as raques partidas. Muitas das penas, tanto nas asas como no corpo, tinham sido arrancadas, ao ponto que a nuca estava completamente depenada, e a asa esquerda tinham um espaço significativo no seu meio. Para além dos danos às penas, tinha marcas de garras ao longo do torso, deixando feridas profundas ainda a sangrar.

Após ter estado no ar por várias horas, a fatiga começou a deixar a sua marca, e eventualmente desceu, entrando no rio com um estrondo. Flutuou à superfície, demasiado cansado para se mover. Arfando suavemente, fechou os seus olhos cianos, virou a cabeça, e pousou o seu pescoço nas costas, o bico escondido pelas penas da asa direita.

Não soube por quanto tempo dormiu. Para as aves, o sono em si é rápido, por alguns segundos, mas isso não impede um descanso prolongado, passando por uma vasta série de sestas, sem abrir os olhos mesmo quando cada falta de consciência acaba. Por consequência, ao fim de vários minutos, a noção do tempo fica destruída.

No seu estado tecnicamente-acordado, detetou ondulações invulgares. Ingikiwai, calmo e sereno, não tem ondas, e, mesmo nos limites da consciência, perturbações na água são difíceis de ignorar.

O corvo-marinho ergueu a sua cabeça num movimento brusco, porém estava num estado de alerta mínimo. A sua visão estava turva, voltando ao normal no período de um minuto exato.

Uma Hōkūleʻa estava a atravessar as águas. As suas velas eram vermelhas, exibindo o símbolo heráldico de Ka-moho-aliʻi, o deus tubarão. Na embarcação estavam vários homens; usavam armaduras de prata ou de ouro, compostas por placas simples cobrindo o torso, conectadas por cordas pequenas, porém rijas. Vestiam saias curtas, de cor verde com padrões brancos, vermelhos e pretos, focados na base, à volta da cintura. As suas caras e braços estavam escurecidos por tatuagens, que de longe pareciam apenas manchas pretas. Alguns dos homens estavam a mover os remos, enquanto outros seguravam lanças e espadas serrilhadas como dentes de tubarão.

Os homens na Hōkūleʻa avistaram a ave, e um deles entro na cabina. Pouco tempo depois, saiu com duas novas personagens. A primeira a sair era uma mulher nova, ainda antes dos vinte, vestindo um manto de penas a cobrir o torso e um pareo a cobrir o corpo do ventre até à barriga das pernas, ambos brancos com padrões vermelhos, verdes e azuis. Atrás da mulher veio um rapaz adolescente, usando apenas uma saia vermelha com padrões verdes; tinha uma cicatriz no lábio inferior, e possuía uma adaga serrilhada no cinto da saia. Os seus olhos eram de um tom invulgar, de um dourado metálico, entre o amarelo e o cinzento. Ao refletirem a luz do Sol, pareciam brilhar com luz própria, algo que cativou a atenção do corvo-marinho.

Tanto a mulher como o rapaz olharam para o corvo-marinho com espanto. Já o tinham visto antes, o estranho defensor Hiruhāramānia.

“Tragam-no a bordo” ordenou a mulher.

Com relutância, um dos homens mergulhou na água, e nadou na direção da ave. Colocou o braço suavemente à volta do corvo-marinho, que não ofereceu resistência. Assim que chegaram à Hōkūleʻa, os restantes homens levantaram o pássaro, pousando-o gentilmente na proa.

A mulher, à beira da ave, ajoelhou e tocou com as mãos nas feridas ainda abertas.

“Que estás a fazer?” disse o corvo-marinho com exaustão. A sua voz, produzida sem lábios, era rouca, com um distinto tom gutural.

“A curar-te.”

Antes que o corvo-marinho tivesse a oportunidade de responder, as mãos começaram a brilhar com uma luz verde, e as feridas fecharam-se. Novas penas cresceram nas zonas depenadas, embora as penas estragadas tivessem continuado no mesmo estado. Sentindo-se rejuvenescido, o pássaro levantou-se e estendeu as asas.

“A que propósito?” perguntou a ave, “Julgava que os Kawau eram mais nada que pestes aos olhos do Planalto.”

“Salvaste Hiruhāramānia. É o mínimo que podia-mos fazer.”

“E também são só os idiotas de Ao que julgam isso acerca dos Kawau” disse o rapaz, visivelmente irritado, “Não que eles façam mais nada para além de odiar, ultimamente.”

Virando a cabeça, o Kawau conseguido ver árvores altas à distância, para lá dos limites da visão humana, crescendo a meio da água.

“Sempre vão buscar Ataata, afinal.”

“Como é que sabes?” perguntou o rapaz.

“Whēuriuri espalhou a notícia” respondeu a mulher, esfregando a testa, sabendo já qual resposta lhe esperava, “Não é uma missão secreta, sabes?”

“Ótimo, simplesmente ótimo. Arranjam sempre novas maneiras de fazer de mim parvo. Ainda vai Raiti abrir o portão e eles hão de lhe vender as facas para a matança. Ao menos podiam ser honestos, que isto não passa de uma caça a gambuzinos!”

“Olha, podes parar de embirrar por um momento? Desejo formar um contrato.”

“Que tipo de contrato?” a mulher perguntou.

O Kawau bateu as asas, testando os membros já curados.

“Posso levar-vos diretamente a Ataata. Sabem como Wairepomangu é vasto, e o quão elusiva ela é. Também posso garantir que ela irá fazer o que vocês querem, sem quaisquer efeitos indesejados. Obviamente, tudo isto tem um preço…”

“Eu curei-te! Não tens o mínimo sentido de gratidão?”

“Não, tu só fizeste-nos ficar quites. O favor de ter salvado Hiruhāramānia foi pago, a ciclo acaba! Não vamos andar ai às voltas com favores.”

“Continua a suar ingrato” resmungou o rapaz.

O Kawau fez um ruído estranho, com um tom de frustração. Lembrou-se por que é que não fazia negócios com as pessoas do Planalto: demasiada moralidade para o seu gosto.

Subitamente, gritos penetrantes quase ensurdeceram a tripulação, e no céu, descendo das montanhas, um par de águias enormes planavam na direção da Hōkūleʻa. Eram duas vezes maiores que o Kawau, e tinham penas de um dourado intenso, refletindo com intensidade a luz do Sol do meio-dia. Planaram em círculos, descendo lentamente por vários minutos, antes de mergulharem a pique.

“Mura, vai…”

Mas antes que a mulher tivesse acabado, o rapaz deu um murro na direção das aves, e uma torrente de chamas emergiu, um pilar de fogo que durou alguns segundos. Os Pouakai desviaram-se em direções opostas, e as chamas atingiram a floresta. Mura tentou mais uma vez, dando um pontapé no ar, e movendo a perna em círculos, criando uma espiral de fogo, mas só conseguiu criar um incêndio na margem oposta.

Uma das águias começou a voar em círculos à volta da Hōkūleʻa. Deu um grito, e um raio de luz branca intensa surgiu do seu bico, atingindo um dos homens nos remos, desintegrando-o em poeira. Porém, voar tão próximo deixou o Pouakai vulnerável, e foi atingido com o fogo de Mura. Levando com uma torrente de chamas, caiu na margem Este, aonde o incêndio do primeiro ataque do rapaz já estava a alastrar-se.

O outro Pouakai mergulhou em direção à mulher. O Kawau, no entanto, meteu-se entre ambos, e deu um grito. Um fumo preto atingiu o Pouakai, e este gritou de dor. Embora não houvesse fogo visível, as penas da águia ficaram queimadas, escurecendo e ficando reduzidas a cinzas. Voou em círculos, tentando apagar o fogo invisível, mas em vão. Alastrando-se, atingiu a pele, que começou a escurecer e a borbulhar, e o pássaro caiu na margem Oeste de Ingikiwai. Morreu, e a carne gradualmente ficou reduzida a vestígios negros, expondo os ossos, que também começaram a escurecer.

“Julgo que me devem um favor…”

A mulher bateu com a palma na testa.

“Quanto é que é o preço?”

“Pensarei nisso na nossa viagem. Bem, já que estamos num contrato, seria cortesia introduzir-me. Chamo-me Pukehou. Julgo que o rapaz se chama Mura?”

“Sim. Sou Hatiti, e geralmente diria que seria um prazer conhecer-te, mas não gosto de contratos forçados.”

“Só por curiosidade, por que é que nos ajudaste em Hiruhāramānia?” Perguntou Mura.

“O meu tio mandou-me. Disse que havia uma carga de corpos de grande valor, ou qualquer coisa do género. Vai matar-me por ter arruinado as tartarugas mortas-vivas. Claro que não me importo de dizer onde ele está que o quiserem entregar às autoridades.”

“Quem anda por ai a roubar pessoas mortas devia juntar-se à coleção de cadáveres!”

“Mura, não temos tempo para isso.”

“Temos sim! Se vamos a Wairepomangu, ao menos que façamos proveito.”

“Só podemos ficar lá três dias no máximo, Mura. E os Pouakai podem atacar novamente amanhã.”

“Ataata vai resolver isso, de certeza. Basta apenas criar um isco.”

Pukehou bateu as asas novamente, e admirou as sua plumagem restaurada. Durante tudo o que tinha acontecido, não teve tempo para ver com atenção os resultados do feitiço de Hatiti.

“Devo dizer, sempre soube que os curandeiros do Planalto tinham talento, mas não esperava isto.”

“Isso significa que não te temos de pagar?” disse Hatiti, cruzando os dedos.

“Não, mas prometo diminuir o preço final.”

Mura, que não estava a prestar muita atenção, lembrou-se de algo.

“Olha, aquilo que fizeste aos Pouakai…ensinas-me?”

“Estás familiarizado com o mana negro?”

“Bem, acho que não. Mas Whēuriuri consegue usar alguns feitiços desse tipo.”

“Precisamos de chegar a Wairepomangu. Aquilo que eu fiz é a essência do pântano, o fogo sem luz da putrefação. Só consegues fazer uso dele se meditares lá. Mas suponho que vais aprender depressa, já que trabalhas com fogo.”

Era a vez de Hatiti não prestar atenção. Olhando para o horizonte, viu árvores enormes de um verde escuro profundo; estranhas coníferas, semelhantes a ciprestes, formando uma copa tão ou ainda mais densa que a da floresta circundante. Ao principio julgou que Ingikiwai fosse dar uma curva, mas as margens continuavam direitas. Aliás, à medida que avançavam, as margens afastavam-se cada vez mais uma da outra, como se o rio tivesse a sua foz num lago. As águas pretas começavam a cobrir-se de tapetes de vegetação aquática; lentilhas-d’água e estranhos fetos flutuantes tais como Azolla começaram a formar carpetes verdes, cobrindo a superfície quase sem falha. Ao longe, os troncos das árvores começaram a tornar-se mais visíveis: cresciam da água, e as suas raízes submersas possuíam extensões que chegavam à superfície, formando minúsculas ilhas de madeira.

“Chegamos, Mura.”

2 Comments leave one →
  1. GigoXXIII permalink
    April 26, 2012 5:40 am

    why did DA ban you

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